sábado, 7 de maio de 2016

Cobras vingativas e outras histórias


Quando criança, eu costumava ouvir e acreditar nas estórias fantásticas envolvendo diferentes cobras com personalidades bastante antropomórficas. Minha mãe contava que seu tio Severino, quando morava no Engenho Mupã, um belo dia se deparou com uma cobra gigantesca enroscada em uma bananeira. Não é segredo que sempre foi costume em sítio ou casa com quintal grande, espantar e matar animais peçonhentos, e deixar uma cobra daquelas tão perto de casa não era boa ideia, ainda mais tendo criança pequena. Então, meu também tio Severino arrumou um porrete e se concentrou na tentativa de desentocar aquela cobra traiçoeira de cima da bananeira. O maior problema é que aquela cobra se tratava de uma papa ova - nome que se devia ao hábito do animal se alimentar de ovos de passarinho – e como qualquer caboclo bem sabia, era uma bicha daquelas mais vingativas entre todas as cobras, tão vingativa que guardava rancor e esperava até a morte, fosse dela ou de seu agressor. Pois bem, meu tio sabia quão olímpica seria aquela tarefa, e não hesitou em estudar o terreno e se precaver de todas as formas para dar a porrada certeira na criatura. Porém, ele falhou em matar o animal com o primeiro golpe e, desesperado, ele buscou refúgio dentro de casa, já sabendo que não haveria mais salvação. No entanto, a fim de se proteger e a seus filhos, sua mulher simplesmente havia trancado a porta, deixando-o do lado de fora justamente com a cobra. No meio do desespero, ele se viu obrigado a sair correndo em disparada mundo afora. Foram muitas horas fugindo daquela serpente cruel, subindo morro, descendo morro, mais outro morro, e outro morro. Ele passou a tarde inteira correndo daquela cobra dos infernos, amarela e brilhante que se apoiava na ponta do rabo e lançava suas presas na direção de qualquer cristão que atravessasse seu caminho. Foi então que, por um milagre divino, já que suas forças se esvaiam depois de tamanha odisseia, ele avistou um rio em seu caminho. Relato aqui, caro leitor, baseado no que os antigos bem conheciam e replicavam, que toda cobra venenosa pode atravessar riacho ou mesmo um grande rio, bastando, porém, procurar uma folha seca no chão que seja suficiente para que a bicha derrame todo seu veneno, e finalmente possa adentrar na água. Quem bem conhece desses causos, ainda diz que se você ficar de tocaia enquanto uma cobra faz tal cerimônia, basta se aproximar da folha e derramar todo o veneno. Quando a danada voltar para recuperar sua peçonha morrerá de tanta raiva ao perceber a maldade que lhe fizeram (Convenhamos, por que tanto ódio dos antigos com esses répteis?). Mas voltando, foi assim que meu tio se salvou da vingativa papa ova, que, à propósito, é conhecida de outro causo ocorrido em Ponte dos Carvalhos. Minha mãe conta que lá pertinho de casa, no comecinho dos anos 80, uma moça, vizinha nossa, se deparou com uma papa ova no quintal de sua casa. Assustada, ela resolveu matar a cobra com uma paulada, assim como meu tio fizera, mas sem sucesso. A cobra fugiu e a moça entrou em casa. Porém, caro leitor, foi aí que começou a épica saga da luta do homem contra a serpente, pois a bixiguenta da cobra se escondeu entre alguns arbustos e ficou a espreita da moça. Toda vez que a moça colocava a cabeça do lado de fora da casa, a vingativa cobra também o fazia lá do seu esconderijo. Isso se repetia constantemente, e a moça não conseguiu sair de casa durante todo aquele dia. Ao voltar do trabalho, seu pai logo ficou sabendo da prezepada da moça em tentar matar uma papa ova sozinha, e, bastante bravo, começou a dizer: “E tu não sabe que essa cobra só vai se aquietar quando teu caixão sair daqui de casa?!” Mesmo a contra gosto, à tardezinha, o pai da moça resolveu acabar logo com aquilo, e tratou de buscar sua espingarda. Ele desentocou o danado do bicho e um duelo entre homem e serpente se desenrolou na boquinha da noite. Tamanho foi o acontecimento que alguns vizinhos se reuniram para presenciar tão grandiosa batalha (naquela época eram raros os muros entre as casas lá no bairro, e as pessoas circulavam livremente por dentro dos terrenos uns dos outros). De um lado, o homem empunhando sua espingarda, e do outro a cobra, enorme e equilibrada sobre sua própria cauda. A bicha era tão grande que praticamente atingia a mesma altura do seu oponente. O homem mirava na cobra, mas a danada se esquivava para um lado, então o homem se deslocava e a cobra mudava novamente sua posição. Isso se repetiu inúmeras vezes, e as pessoas que assistiam à cena já temiam pela morte do pai da moça, pois, após quase uma hora, era visível o cansaço do homem e a maior raiva do animal. Foi então que uma vizinha, já idosa, se aproximou daquele furdunço e, prevendo o pior, resolveu dar fim logo àquela briga. Ela pegou um cabo de vassoura e se dirigiu até o duelo, dando uma cacetada certeira na cobra. Segundo aquela senhora, a cobra já estava tão cega de raiva que nada mais via, senão aquele homem com a espingarda e, por isso, bastava apenas uma pancada forte para que o bicho desencarnasse desse mundo.
        Uma certa vez, também na vizinhança, o marido de uma moça recém casada voltou do trabalho e percebeu que sua mulher e filha dormiam no quarto, mas que havia um estranho barulho vindo da cozinha. Ao procurar de onde vinha aquele som, ele ficou surpreso ao perceber que havia metade de uma cobra enorme em baixo do armário. Aquele rolo de cobra tinha a cabeça e uma parte do tronco, mas parecia cortada, tal qual tivesse sido torada ao meio, ao passar pela linha férrea do bairro. Ela era tão forte, que havia quebrado a parte inferior da porta de madeira da cozinha, entrado na casa e continuava a se debater. Passado o susto, o moço pegou um facão e matou aquele rolo de cobra perambulante.
        Outro causo interessante, que segundo minha mãe é verídico (Ah, caro leitor, como se os outros causos relatados aqui não fossem?!), foi o de um menino de quatro anos que, ao buscar uma bola em baixo da cama em seu quarto, acabou levando uma mordida. O menino foi levado ao hospital, mas terminou falecendo sem ninguém saber o que realmente havia lhe mordido. Após investigação na casa da criança, a perícia, surpreendentemente, descobriu um ninho com 33 cobras jararacas morando em um buraco gigantesco em baixo de sua cama! 
        Finalmente, não posso deixar de falar de uma cobra também bastante cruel, a tal da cipó. Essa cobra é tão, mas tão ruim, que seu veneno tem ação praticamente eterna, visto que o indivíduo que fosse picado pelo bicho jamais engordaria em toda vida, ficando magro e seco igualzinho à cobra cipó. A cobra casco de burro é outro bicho ruinzinho que só ele, porque de tão pequenina, consegue se enfiar entre os cascos de equinos e bovinos, e ao menor passo em falso do animal, a vingativa serpente anã lhe pica e tira sua vida. 

Esses e outros causos de cobras fantásticas eram muito comuns na região, certamente porque cobras sempre despertaram medo e fascínio no ser humano. E em uma comunidade onde nem luz elétrica havia, não era de espantar ouvir uma série de causos sobre esses incríveis seres, cujo imaginário popular nos liga desde longínqua data.