sexta-feira, 18 de março de 2016

A moça do arruado da linha

Minha mãe contava que quando vivia em Escada, por volta do ano de 64, mesmo ano em que o Golpe militar depôs o então governador do estado, Miguel Arraes, e o então prefeito da cidade de Escada, ficou sabendo de uma história apavorante. Era costume, à noite, que as crianças, incluindo minha mãe, brincassem no pátio da igreja matriz da cidade, localizada ao final de uma ladeira, enquanto alguns adolescentes e adultos conversavam, contavam histórias ou tocavam algum instrumento para se divertir. Entre essas pessoas, estava um colega de minha mãe, com provavelmente seus dezessete anos. O rapaz era um galego de olhos de gato, até bastante apessoado, que comumente, entre uma conversa e outra, tocava seu violão na calçada de casa, que ficava um pouco acima na ladeira da igreja, até altas horas da noite. Isso se repetia em quase todas as noites, e, em uma delas, quando não havia mais ninguém pelo pátio da igreja ou nas ruas próximas, por volta de meia noite e meia, o rapaz praticamente havia se esquecido do tempo. Enquanto tocava calmamente seu violão, ele percebeu que havia uma moça, vestida com a farda do Colégio Nossa Senhora da Escada, sozinha bem ali no pátio da igreja. Aquela moça morena e de cabelos negros e longos começou a fazer um sinal com a mão, chamando o rapaz até ela. O rapaz, com o fogo da juventude e sem pensar duas vezes, parou de tocar seu violão, deixou-o no terraço de casa e logo correu ao encontro da moça, descendo um trecho da ladeira. Foi então que a moça pediu ao rapaz que ele a levasse em casa, alegando que morava longe e estava com muito medo de voltar sozinha tão tarde em meio aquela noite sombria. O rapaz ficou tocado com a situação, e já pensando em algo a mais que aquela situação poderia lhe oferecer, logo concordou em fazer companhia àquela moça até sua casa. Afinal, que mal haveria em ajudar uma pobre moça, e, quem sabe, de quebra ganhar um acalento. A moça morava no chamado arruado da linha, um pequeno vilarejo afastado do centro com cinco casas ao longo da linha férrea que, naquela época, partia de Recife, passava por Escada e destinava-se a Maceió. Pois bem, quando ambos chegaram próximo à vila, a uns cem metros da primeira casa, a moça parou repentinamente. Ela agradeceu ao rapaz e disse enfaticamente que não era necessário leva-la até a porta de sua casa, já que seu pai não iria gostar de vê-la em companhia de um rapaz desconhecido. O moço entendeu perfeitamente e voltou para casa depois do ocorrido. O mesmo evento se repetiu nas próximas duas semanas, e o rapaz foi criando grande empatia por aquela moça de olhar faceiro. Porém, na terceira e última semana, em uma noite mais fria que o normal, o rapaz chegou a emprestar-lhe um casaco vermelho. A moça, bem como nas outras vezes, não quis que o rapaz a levasse até a porta de sua casa, mas disse que lhe devolveria o casaco na próxima vez em que se encontrassem. Embora o rapaz esperasse pela companhia da moça nas semanas seguintes, afinal ele até cultivava certa esperança em namorá-la, a moça simplesmente sumiu por um mês. Foi então que o rapaz, já cansado de tocar melodias de sofrimento em seu violão, criou coragem e finalmente foi procurá-la naquelas casas do arruado da linha. A moça havia lhe dito seu nome, então tudo que ele precisava fazer era bater nas cinco casinhas da vila e perguntar por ela. Chegando à primeira casa, instantaneamente ele observou um quadro pendurado na parede da sala e com a fotografia da moça, vestida com a mesma farda do colégio. Uma senhora meio corcunda e segurando um cachimbo na boca, chegou até a portinha de madeira partida ao meio, quase que se arrastando desde sua cadeira de balanço. Ela o fitou tal qual tivesse preguiça de falar, e o rapaz, meio que sem jeito, perguntou pela moça da fotografia na parede. Aquela senhora se apresentou como mãe da moça e, em tom meio ríspido e uma cara emburrada, pitando aquele cachimbo enegrecido de fuligem, foi logo perguntando de onde o rapaz conhecia sua filha e o que ele queria com ela. Já o rapaz, bastante educado, lhe contou sobre os três eventos anteriores em que havia acompanhado sua filha até muito próximo da vila, mas que nunca a moça o deixara se aproximar de sua casa por medo do pai muito bravo. Foi então que o semblante aquela senhora mudou completamente, e ela o revelou que aquilo não poderia ter ocorrido já que sua filha estava morta há dez anos. A senhora o olhou fixamente, balançou a cabeça em negação e deu-lhe as costas, voltando para sua cadeira de balanço e tornando a pitar seu cachimbo e encher o ar de puro fumo. O rapaz, completamente estupefato, não acreditou naquela maluquice da velha cachimbeira, e insistiu em ver a moça, achando que a senhora tentava ludibriá-lo a fim de afastá-lo de sua filha. Nesse momento, a senhora já muito chateada e ainda mais emburrada, tirou o cachimbo da boca e disse ao rapaz que fosse ao cemitério da cidade, procurasse pelo túmulo com determinado número, e ele encontraria o que tanto queria. O rapaz, ainda incrédulo, mas bastante curioso, saiu daquela casa direto para o cemitério. Procurou pelo endereço indicado durante meia hora, e quando já pensava em voltar para casa, xingando aquela velha cachimbeira mentirosa de todos os nomes, para sua surpresa, já bem próximo do portão principal, ele viu um túmulo bastante singelo e com a mesma foto da moça que procurava, uma fotografia igual a que ele viu pendurada na sala da primeira casa do arruado. Tão grande também foi sua surpresa, ao ver ali, quase que desbotado pelo sol, seu casaco vermelho, suspenso na cruz do túmulo da moça. Depois desse dia, o rapaz não tocou mais violão até tarde da noite em frente a sua casa, e tampouco arrastou asas para moças indefesas que perambulavam de uniforme escolar depois da meia noite pela antiga Escada.