domingo, 17 de abril de 2016

Tá correndo bicho: a menina e as ovelhas

Esse talvez tenha sido o primeiro causo que ouvi, quase que em tempo real, sobre uma criatura terrível que perambulava tão próxima a nosso bairro. Eu tinha meus seis a sete anos, e nunca me esquecerei do dia em que Tia Tereza, uma comadre de mainha, foi nos visitar em Ponte dos Carvalhos. Ela não deve ter demorado mais do que duas horas lá em casa, conversando com minha mãe, mas continuei lembrando aquela conversa por anos da minha infância. Hoje em dia, confesso que muitos detalhes se esvaíram, mas ainda me recordo da história em si.

Ela começou a contar que há poucos dias, em um sítio do Engenho Ilha, ali pertinho do bairro, havia ocorrido algo realmente sinistro. Inclusive, ela trouxe consigo um álbum onde havia algumas fotografias, e fez questão de mostrar para minha mãe. Eu, por ser pequena, nunca vi as fotos, e fiquei por anos imaginando o que elas poderiam ter de tão sinistras. Tia Tereza contou para minha mãe que tinha bicho correndo na região. “Bicho correndo” significava que alguma criatura realmente medonha e sedenta por sangue corria todas as noites, causando a morte de muitos animais e assustando aos homens e outras criaturas da terra. Contudo, o caro leitor deve perceber que a expressão “tá correndo bicho” sempre e sempre se referia a algo que não era desse mundo. Ouvir tudo aquilo me causou arrepio, medo e ao mesmo tempo fascínio na ocasião. Afinal, não eram todos os anos em que se tinha notícia que uma criatura mitológica estava à solta, e tão perto da gente.  Minha mãe replicava com suas explicações sobre o porquê de bicho estar correndo. Segundo a população local, quando um filho ou filha espancava seus pais, certamente ele ou ela estaria maldiçoado a se transformar em um bicho sinistro que correria durante sete noites a cada sete anos, até o dia de sua morte. Bom, então tia Tereza continuou dizendo que fazia poucos dias que uma mocinha, filha do dono de um sítio, presenciou algo apavorante. Essa menina criava algumas ovelhas, que todas as noites dormiam ao relento, mas muito próximas à casa do sítio. Nesta fatídica noite, a menina ouviu alguns balidos baixinhos das ovelhas, como se estivessem sendo importunadas por alguma coisa. Então, a menina levantou-se da cama e olhou pela brecha estreita da janela de madeira. Foi então que ela ficou surpresa ao ver uma espécie de bicho enorme, que não era cachorro, lobo, onça ou qualquer coisa parecida com o que se conhecesse lá pelas bandas do Cabo. Ela, apavorada de medo, não conseguiu se mexer, e ficou ali quase que paralisada, vendo suas ovelhas, uma a uma, sendo atacadas pelo bicho medonho. Ao amanhecer, a menina, que mal havia pregado os olhos durante toda aquela noite maldita, levantou-se e se dirigiu até a porta da frente. Ao sair da casa, se deparou com a triste cena, em que todas suas ovelhas estavam, de fato, mortas, secas, sem qualquer gota de sangue e tinham apenas dois orifícios meio azulados na região do pescoço. O pai da menina tirou algumas fotografias daquela verdadeira e triste chacina de ovinos, e enviou o filme para a revelação, guardando-as depois em um álbum (Eu sei, bizarro! Mas como não havia internet, era assim que as coisas eram registradas, ora!). Isso explica o álbum que tia Tereza trazia emprestado naquele dia, e atualmente bem posso imaginar que aquelas fotos mostravam apenas ovelhas mortas com marcas no corpo, mas nada de monstros aterrorizantes captados em alta resolução (o que ingenuamente imaginei na época). De qualquer forma, esse fato deve ter sido seguido de um ou outro registro de ataque a animais nas redondezas, e logo depois tudo se acalmou. Não ouvimos mais falar de bicho correndo por alguns anos, e a história ficou esquecida.