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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O lobisomem no jardim

Caro leitor, esta é, talvez, a história mais assustadora que conto aqui neste livro. Não a considero mais horripilante por seu enredo em si, mas porque fui a protagonista dessa história, juntamente com minha mãe, e posso atestar sua veracidade.

Era um domingo do mês de janeiro de 2001, e ainda me recordo com riqueza de detalhes. Eu havia sido aprovada no vestibular da UFPE, e em março começariam as aulas; mas, por enquanto, estava mesmo curtindo o descanso das tão merecidas férias, após seis meses de árduo estudo. Minha mãe, aos domingos, costumava assistir ao programa do Silvio Santos noite adentro. Eu, ainda frequentava a igreja católica, da qual fazia parte do antigo grupo do coral; e depois da missa, que se estendia até pouco mais que nove da noite, costumava voltar para casa. Ou seja, por volta das dez eu já estava em casa e aproveitava para assistir ao programa do Silvio junto com minha mãe. Naquela época, tv a cabo era artigo de luxo, e para falar a verdade, eu acho que nem devia chegar tal recurso em Ponte dos Carvalhos. Assistir tv aberta era o padrão no bairro, e domingão com Silvio, geralmente, era a melhor entre as péssimas opções disponíveis. 

Era uma noite de domingo tranquila, nada de lua cheia, o céu estava aberto, tudo normal. No dia seguinte, tampouco haveria algo especial, que pudesse nos perturbar ou gerar qualquer ansiedade. Enfim, mais do mesmo... Depois das onze da noite, findado o programa na tv, começamos a nos preparar para dormir. Como, naquela época, meu pai ainda estava separado de minha mãe, costumávamos dormir no mesmo quarto para fazer companhia uma à outra, caso ocorresse algum incidente à noite. Nosso bairro, já fazia algum tempo, não era tão tranquilo e, na verdade, frequentemente virava notícia nos programas policiais locais. Nem preciso explicar que as notícias eram (e ainda são) escolhidas a dedo para chocar o máximo possível dos espectadores desses programas. Mas, apesar disso, até aquela data, nenhum incidente havia ocorrido na nossa casa. Geralmente dormíamos sossegadas, porém vigilantes. 

Nesta fatídica noite, eu adormeci muito rapidamente e, mal havia caído no sono, quando minha mãe me sacudiu falando baixinho: “Escuta, escuta!”. No primeiro momento (sabe quando alguém te acorda de um sono pesado num solavanco?), eu pensei: “Que raios ela quer que eu escute? Aposto que não é nada!”. Mas isso não durou nem três segundos e, eu escutei. Bem ao longe, como se viesse da esquina da nossa rua, algo como um uivo medonho. Não parecia cachorro, pelo menos nenhum que eu já tivesse ouvido durante minhas dezoito primaveras. Mas, de qualquer forma, eu preferi pensar que era um cachorro, e me tranquilizei. Foi então que ouvi outro uivo, ainda mais violento. Caro leitor, para você ter ideia do som, na verdade não se parecia com um uivo de cão, mas sim com o som grave de uma horripilante criatura de cinema. Minha mãe se refere aquele som como um verdadeiro urro, e eu até hoje não sei identificar quão sinistra seria a criatura, vivente na terra, capaz de expulsar de suas entranhas tão grotesco ruído. Este segundo urro parecia mais próximo da nossa casa, tão próximo que denunciava que aquela criatura estava mesmo bem em frente ao nosso portão. 

Preciso abrir aqui um parêntesis e esclarecer, principalmente ao leitor que vem fazendo uma leitura linear dessas histórias em ordem cronológica, que nossa casa sempre teve um muro pequeno e relativamente fácil de subir ou pular, assim como o portão igualmente baixo. Porém, exatamente naquele mês, minha tia Ana, que sempre morou em uma casa geminada ao lado da nossa, havia contratado um pedreiro, vizinho nosso, para elevar o muro de nossas casas e colocar dois novos portões bem mais altos. Naquela última semana, os muros estavam completamente terminados e os portões instalados, inclusive com fechaduras. Isso significava que para alcançar nosso jardim, alguém teria que usar uma escada bastante alta. 

Mas, voltando à fatídica madrugada, pois já devia ser uma da manhã da segunda-feira, não demorou mais que uns dez segundos para ouvir o terceiro urro horrendo da criatura. Desta vez, o som parecia vir do nosso terraço da frente, bem ao lado do quarto onde dormíamos. Ao ouvi-lo, tudo que eu pensei naquele momento foi “É somente um sonho, volte a dormir que vai acabar, volte a dormir!”. Instantaneamente eu baixei minha cabeça, ainda meio sonolenta e tentei ficar quietinha, sem mexer um músculo sequer. Foi então que minha mãe, com aquele jeito pernambucano dela, não se conteve e já foi falando alto mesmo: Essa menina ... a gente acorda ela para ajudar, e ela volta a dormir!”. Naquele instante, eu pensei: “Lascou-se tudo! É agora que esse bicho vai pular na nossa janela (um basculante, que estava quebrado e facilmente se abria) e sabe-se lá mais o quê”. Mas, surpreendentemente, tudo se acalmou; nada mais fez barulho, e eu e minha mãe ficamos quietinhas, caladas e quase paralisadas até adormecermos. 

No dia seguinte, ao acordar, fiquei alguns minutos na cama, tentando decifrar se todo aquele acontecimento não havia passado de um pesadelo. Quando eu vi que minha mãe já estava de pé na cozinha, eu levantei ainda meio amedrontada, e fui até ela. Logo percebi que ela ainda não havia aberto as janelas da frente da casa, e foi então que perguntei: “Mainha, aquilo foi um sonho, né?”, na esperança de que ela perguntasse sobre o que diabos eu estava falando. Mas logo veio sua resposta: “Não foi não! Eu ainda nem tive coragem de olhar lá fora, e estava mesmo te esperando para fazer isso”. Ainda bastante amedrontadas com o que poderíamos encontrar lá fora, criamos alguma coragem para abrir a porta, somente depois de ouvir que pessoas já caminhavam e conversavam na rua. 

Ao abrirmos a porta, veio outra surpresa: todos os sacos do lixo, recém organizados, estavam rasgados e remexidos, as plantas do jardim completamente arrancadas, um forte cheiro de animal (similar ao de um cachorro rabugento que não se banhava há anos) pairava sobre o jardim; e, o que mais me assustou, um andaime da obra recém-finalizada, que estava bem em frente à nossa janela, tinha sido empurrado juntamente com um grande jarro de planta da minha mãe. 

Pensando mais friamente depois de alguns anos, talvez todos esses detalhes tenham sido meras coincidências, que já estavam lá na noite anterior, mas que somente percebemos e, depois do fenômeno, associamos ao acontecimento da madrugada. Mas, de qualquer forma, tudo aquilo nos deixou ainda mais assustadas e com uma certeza ainda maior de que aquele som veio de uma criatura real e tenebrosa. 

Finalmente, fomos conversar com minha tia, nossa vizinha da casa geminada e, para nossa mais completa surpresa, ela não ouviu nada! Mas, como ela costumava ter um sono pesado, talvez fosse normal que ela não tivesse escutado qualquer coisa. Minha mãe tentou sondar outros vizinhos, e novamente ninguém escutou qualquer coisa estranha na última madrugada! Absolutamente nada. Mesmo as pessoas que se diziam acordadas naquele horário não escutaram nada, nem mesmo um latido de cachorro estranho, uns gatos bisonhos a procura de companheiras, nada, nada, nada. Aí ficamos ainda mais encucadas, pois qual seria a explicação para tamanha assombração?

Alguns dias depois, um de nossos vizinhos, justamente o mesmo pedreiro da obra do muro, ao saber do ocorrido, nos disse que por volta da meia noite daquele domingo ele foi até o jardim de sua casa para fumar um cigarro, e que de lá avistou um filhote de jumento, deitado sob um pau-brasil que havia em frente à casa da minha tia. Até aí, nada anormal, pois já havia alguns meses que um jumentinho ficava por ali mesmo. Ninguém sabia muito bem de quem era, mas provavelmente era de um senhor que criava uns cavalos na quadra após nossa rua. 

Nunca saberemos se esse jumento teve relação com o fenômeno que escutamos e tanto nos assombrou, ou se o que escutamos foi o responsável pelo furdunço no nosso jardim, mas posso atestar, certamente, que aquilo foi a coisa mais pavorosa que já ouvi em toda a vida, e que, se naquela noite eu estivesse sozinha, ainda relutaria em acreditar em mim mesma.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Tá correndo bicho: causos de engenho

Havia muitas histórias (ou estórias) de bichos que corriam, tarde da noite, nos engenhos pernambucanos, afastados das luzes das cidades. Esses bichos botavam tanto pavor nos moradores que as pessoas mudavam seus hábitos e horários para evitar um possível encontro com um chupador de sangue, meio homem meio bicho, cuja natureza era demasiadamente medonha e sinistra. Essa história é sobre uma tia avó minha, que morava no Engenho Campo Alegre, e que tendo que visitar sua sogra, minha bisavó Dona Donzinha, no município de Escada, tinha que caminhar cerca de dez horas, em estradas margeadas por canaviais e, às vezes, pequenos vilarejos até chegar em seu destino. Essa distância não espanta, visto que, no passado, era costume rotineiro pessoas realizarem longas caminhadas, que duravam até dias inteiros, para visitar familiares em outros municípios vizinhos. Após visitar sua sogra, normalmente essa minha tia saia bem cedo na manhã seguinte, o que lhe garantia chegar a Campo Alegre ainda à tardinha. No entanto, em certa ocasião, ela se descuidou da hora e deixou a casa de minha bisavó somente ao meio dia. Apesar de estar receosa com o andar das horas, ela queria mesmo retornar para sua casa. Deixou de lado sua apreensão, embora soubesse que, mesmo a passos largos, só chegaria em casa após dez horas da noite. Naquela época não havia tanta violência e minha tia, diga-se de passagem bastante corajosa, não teria tido seu coração afligido, se não fosse pela tenebrosa notícia sobre um bicho que andava atacando animais nos engenhos ao longo de seu caminho. A estrada era de terra e parecia se estender infinitamente por entre canaviais, matas fechadas e raros vilarejos. Já havia escurecido e passava das onze horas da noite, mas faltava ainda mais de uma hora de caminhada até sua casa, que ficava em um sítio bem afastado do engenho. Apesar do medo, a noite estava bastante iluminada pela lua e nenhuma criatura havia lhe cruzado o caminho, quando, ao subir um morro, ela percebeu um vulto escuro e muito grande se locomovendo logo abaixo. Nesse instante, seu coração disparou completamente, pois ela sabia que só havia cana de açúcar em sua volta e, seja qual direção tomasse, ela ainda estava a mais de uma hora de qualquer alma viva. Ela criou coragem e reduziu seu caminhar, esperando que aquela criatura desaparecesse ao longe, no meio do breu. Quando não mais viu qualquer sinal de criatura, apertou o passo e, finalmente ao chegar em casa, encontrou seu marido que a recebeu desesperado, relatando que não fazia nem meia hora que o tal bicho, que corria por aquelas bandas, acabara de passar urrando alto, muito perto de sua casa.

domingo, 17 de abril de 2016

Tá correndo bicho: a menina e as ovelhas

Esse talvez tenha sido o primeiro causo que ouvi, quase que em tempo real, sobre uma criatura terrível que perambulava tão próxima a nosso bairro. Eu tinha meus seis a sete anos, e nunca me esquecerei do dia em que Tia Tereza, uma comadre de mainha, foi nos visitar em Ponte dos Carvalhos. Ela não deve ter demorado mais do que duas horas lá em casa, conversando com minha mãe, mas continuei lembrando aquela conversa por anos da minha infância. Hoje em dia, confesso que muitos detalhes se esvaíram, mas ainda me recordo da história em si.

Ela começou a contar que há poucos dias, em um sítio do Engenho Ilha, ali pertinho do bairro, havia ocorrido algo realmente sinistro. Inclusive, ela trouxe consigo um álbum onde havia algumas fotografias, e fez questão de mostrar para minha mãe. Eu, por ser pequena, nunca vi as fotos, e fiquei por anos imaginando o que elas poderiam ter de tão sinistras. Tia Tereza contou para minha mãe que tinha bicho correndo na região. “Bicho correndo” significava que alguma criatura realmente medonha e sedenta por sangue corria todas as noites, causando a morte de muitos animais e assustando aos homens e outras criaturas da terra. Contudo, o caro leitor deve perceber que a expressão “tá correndo bicho” sempre e sempre se referia a algo que não era desse mundo. Ouvir tudo aquilo me causou arrepio, medo e ao mesmo tempo fascínio na ocasião. Afinal, não eram todos os anos em que se tinha notícia que uma criatura mitológica estava à solta, e tão perto da gente.  Minha mãe replicava com suas explicações sobre o porquê de bicho estar correndo. Segundo a população local, quando um filho ou filha espancava seus pais, certamente ele ou ela estaria maldiçoado a se transformar em um bicho sinistro que correria durante sete noites a cada sete anos, até o dia de sua morte. Bom, então tia Tereza continuou dizendo que fazia poucos dias que uma mocinha, filha do dono de um sítio, presenciou algo apavorante. Essa menina criava algumas ovelhas, que todas as noites dormiam ao relento, mas muito próximas à casa do sítio. Nesta fatídica noite, a menina ouviu alguns balidos baixinhos das ovelhas, como se estivessem sendo importunadas por alguma coisa. Então, a menina levantou-se da cama e olhou pela brecha estreita da janela de madeira. Foi então que ela ficou surpresa ao ver uma espécie de bicho enorme, que não era cachorro, lobo, onça ou qualquer coisa parecida com o que se conhecesse lá pelas bandas do Cabo. Ela, apavorada de medo, não conseguiu se mexer, e ficou ali quase que paralisada, vendo suas ovelhas, uma a uma, sendo atacadas pelo bicho medonho. Ao amanhecer, a menina, que mal havia pregado os olhos durante toda aquela noite maldita, levantou-se e se dirigiu até a porta da frente. Ao sair da casa, se deparou com a triste cena, em que todas suas ovelhas estavam, de fato, mortas, secas, sem qualquer gota de sangue e tinham apenas dois orifícios meio azulados na região do pescoço. O pai da menina tirou algumas fotografias daquela verdadeira e triste chacina de ovinos, e enviou o filme para a revelação, guardando-as depois em um álbum (Eu sei, bizarro! Mas como não havia internet, era assim que as coisas eram registradas, ora!). Isso explica o álbum que tia Tereza trazia emprestado naquele dia, e atualmente bem posso imaginar que aquelas fotos mostravam apenas ovelhas mortas com marcas no corpo, mas nada de monstros aterrorizantes captados em alta resolução (o que ingenuamente imaginei na época). De qualquer forma, esse fato deve ter sido seguido de um ou outro registro de ataque a animais nas redondezas, e logo depois tudo se acalmou. Não ouvimos mais falar de bicho correndo por alguns anos, e a história ficou esquecida.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Prefácio da obra

Essa coletânea surgiu de uma necessidade grandiosa e intrínseca de registrar um passado mágico e rico de histórias fantásticas, as quais, por muito tempo (e talvez ainda), permearam meu cotidiano infantil na região metropolitana do Recife entre as décadas de 80 e 90. Essas histórias são, em sua grande maioria, advindas de contos da minha própria família. Mas também contribuíram muito para essa humilde coletânea as ouvidas dos vizinhos e de conhecidos que, periodicamente, visitávamos em localidades mais longínquas.  
Muitos dos causos relatados aqui são advindos de histórias ocorridas em municípios da atual grande Recife, sendo em sua grande maioria provenientes de localidades mais afastadas e ainda chamadas de engenhos. Dentre essas localidades, algumas ainda possuem grandes canaviais e usinas de beneficiamento de açúcar e derivados, enquanto outras viraram bairros afastados ou pequenos povoados, praticamente perdidos da civilização. Para fins de compreensão sobre a distribuição espacial das histórias, o leitor poderá acompanhar o mapa detalhado de muitas das localidades retratadas aqui nesta obra.
Visto que passei toda minha infância e juventude em Ponte dos Carvalhos, atual distrito do município do Cabo de Santo Agostinho, que abarca trechos do litoral sul e da Zona da Mata pernambucana, muitas histórias se passam neste município, e já outras representam causos ouvidos ou presenciados por familiares e conhecidos em municípios próximos, ao exemplo de Escada e São Lourenço da Mata. Ora haverá algum relato ocorrido em Caruaru, no Agreste pernambucano e, para não dizer que não falei de Recife, haverá histórias provenientes da própria capital.

Finalmente, gostaria de agradecer imensamente a todos que contribuíram com suas histórias fantásticas, contadas com tanto entusiasmo e verdade, que me fizeram uma eterna apaixonada pelos causos e contos que o povo conta. Esclareço que há uma pitada de interpretação pessoal nas crônicas e, por isso mesmo, fiz questão de relatá-las como me lembrava delas, resgatando um “quê” de perplexidade e encanto infantil, de quando eu ouvia essas histórias, muitas vezes sentada à mesa da nossa cozinha, nos dias em que faltava energia elétrica e a família se reunia ali por horas. E eu, incoerentemente medrosa e corajosa, ouvia atentamente, e logo pedia por mais causos, especialmente os de mal assombro e outras visagens desse e do outro mundo.

Periodicamente, novas histórias serão postadas aqui. Veja a seguir, uma lista delas:

Sumário