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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Tá correndo bicho: causos de engenho

Havia muitas histórias (ou estórias) de bichos que corriam, tarde da noite, nos engenhos pernambucanos, afastados das luzes das cidades. Esses bichos botavam tanto pavor nos moradores que as pessoas mudavam seus hábitos e horários para evitar um possível encontro com um chupador de sangue, meio homem meio bicho, cuja natureza era demasiadamente medonha e sinistra. Essa história é sobre uma tia avó minha, que morava no Engenho Campo Alegre, e que tendo que visitar sua sogra, minha bisavó Dona Donzinha, no município de Escada, tinha que caminhar cerca de dez horas, em estradas margeadas por canaviais e, às vezes, pequenos vilarejos até chegar em seu destino. Essa distância não espanta, visto que, no passado, era costume rotineiro pessoas realizarem longas caminhadas, que duravam até dias inteiros, para visitar familiares em outros municípios vizinhos. Após visitar sua sogra, normalmente essa minha tia saia bem cedo na manhã seguinte, o que lhe garantia chegar a Campo Alegre ainda à tardinha. No entanto, em certa ocasião, ela se descuidou da hora e deixou a casa de minha bisavó somente ao meio dia. Apesar de estar receosa com o andar das horas, ela queria mesmo retornar para sua casa. Deixou de lado sua apreensão, embora soubesse que, mesmo a passos largos, só chegaria em casa após dez horas da noite. Naquela época não havia tanta violência e minha tia, diga-se de passagem bastante corajosa, não teria tido seu coração afligido, se não fosse pela tenebrosa notícia sobre um bicho que andava atacando animais nos engenhos ao longo de seu caminho. A estrada era de terra e parecia se estender infinitamente por entre canaviais, matas fechadas e raros vilarejos. Já havia escurecido e passava das onze horas da noite, mas faltava ainda mais de uma hora de caminhada até sua casa, que ficava em um sítio bem afastado do engenho. Apesar do medo, a noite estava bastante iluminada pela lua e nenhuma criatura havia lhe cruzado o caminho, quando, ao subir um morro, ela percebeu um vulto escuro e muito grande se locomovendo logo abaixo. Nesse instante, seu coração disparou completamente, pois ela sabia que só havia cana de açúcar em sua volta e, seja qual direção tomasse, ela ainda estava a mais de uma hora de qualquer alma viva. Ela criou coragem e reduziu seu caminhar, esperando que aquela criatura desaparecesse ao longe, no meio do breu. Quando não mais viu qualquer sinal de criatura, apertou o passo e, finalmente ao chegar em casa, encontrou seu marido que a recebeu desesperado, relatando que não fazia nem meia hora que o tal bicho, que corria por aquelas bandas, acabara de passar urrando alto, muito perto de sua casa.

domingo, 20 de março de 2016

Não brinque com a réstia


Minha mãe foi criada por sua tia madrinha e pela avó paterna na cidade de Escada, mas durante algumas férias, quando ainda tinha por volta de quatro a cinco anos, costumava visitar seus pais em um sítio no Engenho Massauassu. A água era de poço, a iluminação de candeeiro, e a casa dos meus avós era bastante afastada de outras casas, em meio à cana de açúcar e algumas matinhas que existiam na região. Meu avô costumava usar a desculpa de que precisava comprar querosene em um barracão da usina, léguas longe dali, e todo santo dia ele saia cedo e voltava já tarde, com aqueles dois dedinhos de querosene para acender o candeeiro. Mas na verdade, ele voltava mesmo era bastante cheio de pinga. Enquanto isso, minha mãe costumava ficar com minha avó durante todo o dia, a ajudá-la com os afazeres domésticos, como ir buscar água no poço, procurar por lenha perto do aceiro da mata, cuidar do jardim repleto de cravos e, às vezes, brincar com bichinhos feitos de batata e palito. À tardinha, minha avó costumava dar banho em minha mãe usando uma bacia e um canequinho, sempre à luz do candeeiro ou mesmo de uma vela. Minha mãe conta que durante esses banhos ela achava extremamente divertido observar sua réstia na parede da casa, e que corria de um lado para outro em uma banqueta de madeira só para ver sua sombra enorme projetada na parede. Minha avó, sempre advertia: “Não brinque com a réstia, menina! Você vai se assombrar à noite”. Minha mãe não dava à mínima, e continuava brincando, por várias ocasiões em que tinha oportunidade. Até que uma noite, sem nem mais lembrar do que sua mãe costumava lhe dizer sobre essa possível assombração, minha mãe já estava deitada em sua rede, no quarto onde dormia, quando percebeu que na parede do quarto, bem a sua frente, havia uma velha. Isso mesmo, uma velha, que parecia de carne e osso, mas que ela não a conhecia. Aquela velha era muito magra, corcunda, de nariz muito pontudo e encurvado, vestida de preto, e a observava atentamente. Minha mãe jura que não era réstia de alguma planta na janela, nem mesmo que ela estava dormindo. Ela fechava os olhos e ao abrir, a velha continuava lá, materializada, olhando-a fixamente. Minha mãe começou a chorar desesperada, chamando por sua mãe, enquanto aquela velha, que mais aparentava ser uma bruxa comedora de criancinhas, sumiu tal qual fumaça no ar. Naquela noite, minha avó correu ao quarto e ficou com minha mãe até ela adormecer. Depois disso, a velha tenebrosa não voltou a aparecer, e minha mãe parou com suas peraltices, deixando sua própria réstia em paz.


sexta-feira, 18 de março de 2016

A moça do arruado da linha

Minha mãe contava que quando vivia em Escada, por volta do ano de 64, mesmo ano em que o Golpe militar depôs o então governador do estado, Miguel Arraes, e o então prefeito da cidade de Escada, ficou sabendo de uma história apavorante. Era costume, à noite, que as crianças, incluindo minha mãe, brincassem no pátio da igreja matriz da cidade, localizada ao final de uma ladeira, enquanto alguns adolescentes e adultos conversavam, contavam histórias ou tocavam algum instrumento para se divertir. Entre essas pessoas, estava um colega de minha mãe, com provavelmente seus dezessete anos. O rapaz era um galego de olhos de gato, até bastante apessoado, que comumente, entre uma conversa e outra, tocava seu violão na calçada de casa, que ficava um pouco acima na ladeira da igreja, até altas horas da noite. Isso se repetia em quase todas as noites, e, em uma delas, quando não havia mais ninguém pelo pátio da igreja ou nas ruas próximas, por volta de meia noite e meia, o rapaz praticamente havia se esquecido do tempo. Enquanto tocava calmamente seu violão, ele percebeu que havia uma moça, vestida com a farda do Colégio Nossa Senhora da Escada, sozinha bem ali no pátio da igreja. Aquela moça morena e de cabelos negros e longos começou a fazer um sinal com a mão, chamando o rapaz até ela. O rapaz, com o fogo da juventude e sem pensar duas vezes, parou de tocar seu violão, deixou-o no terraço de casa e logo correu ao encontro da moça, descendo um trecho da ladeira. Foi então que a moça pediu ao rapaz que ele a levasse em casa, alegando que morava longe e estava com muito medo de voltar sozinha tão tarde em meio aquela noite sombria. O rapaz ficou tocado com a situação, e já pensando em algo a mais que aquela situação poderia lhe oferecer, logo concordou em fazer companhia àquela moça até sua casa. Afinal, que mal haveria em ajudar uma pobre moça, e, quem sabe, de quebra ganhar um acalento. A moça morava no chamado arruado da linha, um pequeno vilarejo afastado do centro com cinco casas ao longo da linha férrea que, naquela época, partia de Recife, passava por Escada e destinava-se a Maceió. Pois bem, quando ambos chegaram próximo à vila, a uns cem metros da primeira casa, a moça parou repentinamente. Ela agradeceu ao rapaz e disse enfaticamente que não era necessário leva-la até a porta de sua casa, já que seu pai não iria gostar de vê-la em companhia de um rapaz desconhecido. O moço entendeu perfeitamente e voltou para casa depois do ocorrido. O mesmo evento se repetiu nas próximas duas semanas, e o rapaz foi criando grande empatia por aquela moça de olhar faceiro. Porém, na terceira e última semana, em uma noite mais fria que o normal, o rapaz chegou a emprestar-lhe um casaco vermelho. A moça, bem como nas outras vezes, não quis que o rapaz a levasse até a porta de sua casa, mas disse que lhe devolveria o casaco na próxima vez em que se encontrassem. Embora o rapaz esperasse pela companhia da moça nas semanas seguintes, afinal ele até cultivava certa esperança em namorá-la, a moça simplesmente sumiu por um mês. Foi então que o rapaz, já cansado de tocar melodias de sofrimento em seu violão, criou coragem e finalmente foi procurá-la naquelas casas do arruado da linha. A moça havia lhe dito seu nome, então tudo que ele precisava fazer era bater nas cinco casinhas da vila e perguntar por ela. Chegando à primeira casa, instantaneamente ele observou um quadro pendurado na parede da sala e com a fotografia da moça, vestida com a mesma farda do colégio. Uma senhora meio corcunda e segurando um cachimbo na boca, chegou até a portinha de madeira partida ao meio, quase que se arrastando desde sua cadeira de balanço. Ela o fitou tal qual tivesse preguiça de falar, e o rapaz, meio que sem jeito, perguntou pela moça da fotografia na parede. Aquela senhora se apresentou como mãe da moça e, em tom meio ríspido e uma cara emburrada, pitando aquele cachimbo enegrecido de fuligem, foi logo perguntando de onde o rapaz conhecia sua filha e o que ele queria com ela. Já o rapaz, bastante educado, lhe contou sobre os três eventos anteriores em que havia acompanhado sua filha até muito próximo da vila, mas que nunca a moça o deixara se aproximar de sua casa por medo do pai muito bravo. Foi então que o semblante aquela senhora mudou completamente, e ela o revelou que aquilo não poderia ter ocorrido já que sua filha estava morta há dez anos. A senhora o olhou fixamente, balançou a cabeça em negação e deu-lhe as costas, voltando para sua cadeira de balanço e tornando a pitar seu cachimbo e encher o ar de puro fumo. O rapaz, completamente estupefato, não acreditou naquela maluquice da velha cachimbeira, e insistiu em ver a moça, achando que a senhora tentava ludibriá-lo a fim de afastá-lo de sua filha. Nesse momento, a senhora já muito chateada e ainda mais emburrada, tirou o cachimbo da boca e disse ao rapaz que fosse ao cemitério da cidade, procurasse pelo túmulo com determinado número, e ele encontraria o que tanto queria. O rapaz, ainda incrédulo, mas bastante curioso, saiu daquela casa direto para o cemitério. Procurou pelo endereço indicado durante meia hora, e quando já pensava em voltar para casa, xingando aquela velha cachimbeira mentirosa de todos os nomes, para sua surpresa, já bem próximo do portão principal, ele viu um túmulo bastante singelo e com a mesma foto da moça que procurava, uma fotografia igual a que ele viu pendurada na sala da primeira casa do arruado. Tão grande também foi sua surpresa, ao ver ali, quase que desbotado pelo sol, seu casaco vermelho, suspenso na cruz do túmulo da moça. Depois desse dia, o rapaz não tocou mais violão até tarde da noite em frente a sua casa, e tampouco arrastou asas para moças indefesas que perambulavam de uniforme escolar depois da meia noite pela antiga Escada.

Prefácio da obra

Essa coletânea surgiu de uma necessidade grandiosa e intrínseca de registrar um passado mágico e rico de histórias fantásticas, as quais, por muito tempo (e talvez ainda), permearam meu cotidiano infantil na região metropolitana do Recife entre as décadas de 80 e 90. Essas histórias são, em sua grande maioria, advindas de contos da minha própria família. Mas também contribuíram muito para essa humilde coletânea as ouvidas dos vizinhos e de conhecidos que, periodicamente, visitávamos em localidades mais longínquas.  
Muitos dos causos relatados aqui são advindos de histórias ocorridas em municípios da atual grande Recife, sendo em sua grande maioria provenientes de localidades mais afastadas e ainda chamadas de engenhos. Dentre essas localidades, algumas ainda possuem grandes canaviais e usinas de beneficiamento de açúcar e derivados, enquanto outras viraram bairros afastados ou pequenos povoados, praticamente perdidos da civilização. Para fins de compreensão sobre a distribuição espacial das histórias, o leitor poderá acompanhar o mapa detalhado de muitas das localidades retratadas aqui nesta obra.
Visto que passei toda minha infância e juventude em Ponte dos Carvalhos, atual distrito do município do Cabo de Santo Agostinho, que abarca trechos do litoral sul e da Zona da Mata pernambucana, muitas histórias se passam neste município, e já outras representam causos ouvidos ou presenciados por familiares e conhecidos em municípios próximos, ao exemplo de Escada e São Lourenço da Mata. Ora haverá algum relato ocorrido em Caruaru, no Agreste pernambucano e, para não dizer que não falei de Recife, haverá histórias provenientes da própria capital.

Finalmente, gostaria de agradecer imensamente a todos que contribuíram com suas histórias fantásticas, contadas com tanto entusiasmo e verdade, que me fizeram uma eterna apaixonada pelos causos e contos que o povo conta. Esclareço que há uma pitada de interpretação pessoal nas crônicas e, por isso mesmo, fiz questão de relatá-las como me lembrava delas, resgatando um “quê” de perplexidade e encanto infantil, de quando eu ouvia essas histórias, muitas vezes sentada à mesa da nossa cozinha, nos dias em que faltava energia elétrica e a família se reunia ali por horas. E eu, incoerentemente medrosa e corajosa, ouvia atentamente, e logo pedia por mais causos, especialmente os de mal assombro e outras visagens desse e do outro mundo.

Periodicamente, novas histórias serão postadas aqui. Veja a seguir, uma lista delas:

Sumário