O
pai do mangue é uma dessas criaturas mitológicas que poucos conhecem, porque,
convenhamos, nem todo mundo mora perto do mangue. Os antigos pescadores lá do
bairro onde cresci, relatavam que esse ser protegia os mangues, e quando
aparecia, costumava ser na forma de um enorme redemoinho no rio, que devorava
para dentro das águas as pessoas inexperientes que se aventuravam a desbravar os
mangues e seus rios. Alguns diziam que se tratava de uma criatura meio aquática
meio terrestre, um anfíbio por assim dizer, que ora vagava por entre os
manguezais lamacentos, esgueirando-se entre as árvores, ora nadando no rio
Pirapama ou seus afluentes. Até mais ou menos a década de 90, existia um
costume herdado dos mais antigos, em que alguns moradores do bairro atravessavam,
a nado, o rio Piraparama no seu trecho mais estreito, apoiando-se em um bambu sustentado
entre as pernas. Após atravessar um extenso mangue, uma área de restinga, cruzar
o rio a nado, e alcançar a outra margem do rio, também coberta de mangue, eles finalmente
alcançavam a praia do Paiva, naquela época deserta, e hoje reduto granfino da
Riviera pernambucana. Dessa forma, afloravam no bairro os causos de avistamento
do místico pai do mangue. Já outros moradores, especialmente os pescadores,
relatam que o pai do mangue aparecia um senhor negro, com chapéu de palha e um
samburá nas costas, que, tendo um caranguejo em uma das mãos, vistoriava as
tocas do crustáceo sempre dizendo: “Aqui tem caranguejo. Aqui não tem”, e
colocava um caranguejo em cada toca desocupada. Assim como o pai do mangue,
havia também seu primo, mais bem conhecido, o pai da mata, que supostamente
protegia as florestas da ação perversa e destruidora dos homens que não
respeitassem aquele habitat silvestre. Creio
que uma espécie de pai da mata era o Tôsseco. Essa criatura, meio homem meio
árvore, gigante e seca, costumava aparecer às pessoas que se aventuravam fundo
nas matas nos arredores de Recife. Quando ela fazia sua aparição, geralmente
era acompanhada de sustos, em que a criatura murmurava com uma voz grotesca
“Tôsseco, tôsseco, tôsseco”, enquanto caminhava lentamente com suas pernas
compridas e finas de madeira.
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domingo, 1 de maio de 2016
O pai do mangue e outras entidades protetoras
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Local: Recife
Pte. dos Carvalhos, Cabo de Santo Agostinho - PE, Brasil
sexta-feira, 18 de março de 2016
Prefácio da obra
Essa coletânea surgiu de uma necessidade grandiosa e intrínseca de registrar um passado
mágico e rico de histórias fantásticas, as quais, por muito tempo (e talvez
ainda), permearam meu cotidiano infantil na região metropolitana do Recife entre
as décadas de 80 e 90. Essas histórias são, em sua grande maioria, advindas de
contos da minha própria família. Mas também contribuíram muito para essa humilde
coletânea as ouvidas dos vizinhos e de conhecidos que,
periodicamente, visitávamos em localidades mais longínquas.
Muitos dos causos relatados aqui são advindos de histórias ocorridas em municípios da atual grande
Recife, sendo em sua grande maioria provenientes de localidades mais afastadas
e ainda chamadas de engenhos. Dentre essas localidades, algumas ainda possuem
grandes canaviais e usinas de beneficiamento de açúcar e derivados, enquanto
outras viraram bairros afastados ou pequenos povoados, praticamente perdidos da
civilização. Para fins de compreensão sobre a distribuição espacial das
histórias, o leitor poderá acompanhar o mapa detalhado de muitas das
localidades retratadas aqui nesta obra.
Visto que passei toda
minha infância e juventude em Ponte dos Carvalhos, atual distrito do município
do Cabo de Santo Agostinho, que abarca trechos do litoral sul e da Zona da Mata
pernambucana, muitas histórias se passam neste município, e já outras representam
causos ouvidos ou presenciados por familiares e conhecidos em municípios
próximos, ao exemplo de Escada e São Lourenço da Mata. Ora haverá algum relato
ocorrido em Caruaru, no Agreste pernambucano e, para não dizer que não falei
de Recife, haverá histórias provenientes da própria capital.
Finalmente, gostaria
de agradecer imensamente a todos que contribuíram com suas histórias
fantásticas, contadas com tanto entusiasmo e verdade, que me fizeram uma eterna
apaixonada pelos causos e contos que o povo conta. Esclareço que há uma pitada
de interpretação pessoal nas crônicas e, por isso mesmo, fiz questão de
relatá-las como me lembrava delas, resgatando um “quê” de perplexidade e
encanto infantil, de quando eu ouvia essas histórias, muitas vezes sentada à mesa da nossa
cozinha, nos dias em que faltava energia elétrica e a família se reunia ali por
horas. E eu, incoerentemente medrosa e corajosa, ouvia atentamente, e logo
pedia por mais causos, especialmente os de mal assombro e outras visagens desse
e do outro mundo.
Periodicamente, novas histórias serão postadas aqui. Veja a seguir, uma lista delas:
Periodicamente, novas histórias serão postadas aqui. Veja a seguir, uma lista delas:
Sumário
A freira que vigiava.. 11
Visagem na madrugada.. 26
Comadre Florzinha.. 32
O homem de preto. 46
Papai Noel. 62
O lobisomem no jardim... 74
Epílogo. 81
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