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sexta-feira, 8 de julho de 2016

O pacto para ganhar no bicho


Minha mãe conta que há inúmeras formas de se ganhar no jogo do bicho, algumas mais bobas como refletir sobre seu sonho da noite anterior, outras envolvendo rezas antes de dormir, pedindo para que o bicho se mostrasse em sonho, ou mesmo a famosa simpatia do cuscuz. Mas algumas formas eram realmente sinistras e ainda mais certeiras no alcance do objetivo. E como tudo nessa vida é feito de escolhas, fazer um pacto para ganhar no jogo do bicho significaria vender sua alma a você sabe quem, não é mesmo? Pois ela contava que dois moços, cansados da pobreza, em um belo dia resolveram fazer um pacto para ganhar no jogo do bicho e resolver para sempre essa vida de pindaíba e de cuscuz puro ou com ovo. Eles se organizaram por dias antes da noite prevista para a realização da grandiosa cerimônia. Quando se aproximava da meia-noite, os dois se dirigiram para uma encruzilhada bem afastada do centro da cidade, procuraram um poste, e um dos rapazes foi amarrado a esse poste pelo seu outro colega. Talvez, caro leitor, você esteja se perguntando por que amarrar um dos moços, como eu perguntei à minha mãe na época em que ela me contou esse causo: fazia parte da cerimônia, e eles simplesmente estavam seguindo todos os passos minuciosamente descritos naquele livrinho de rituais. Parece que na ocasião não houve um consenso para saber quem seria amarrado ao poste, mas depois de muita discussão, eles tiraram no par ou ímpar e resolveram quem seria o sortudo a ficar preso à encruzilhada. Então os rapazes esperaram até que batesse a meia noite e o moço que não estava amarrado começou a ler alguma espécie de oração para invocar você sabe quem. Após a terceira leitura da oração, uma ventania surgiu repentinamente, balançando com avidez as folhas das árvores e até o poste onde um dos rapazes estava amarrado. O outro rapaz, morto de medo, não pensou duas vezes e saiu em disparada, deixando o amigo para trás. O moço amarrado, também se borrava de medo, mas não podia fazer nada naquela situação, senão esperar para ver o que aconteceria. Foi então, que do meio da ventania surgiu uma mulher, isso mesmo, uma entidade chamada de Maria Padilha, esposa de você sabe quem. Essa mulher se aproximou do rapaz amarrado e lhe perguntou, meio que aborrecida, o que você quer? O rapaz, já cagado de medo, literalmente, desconversou e disse que não queria nada não; que ele havia se arrependido e que ela poderia ir embora. A mulher, ainda mais aborrecida, lançou um longo olhar de raiva para o rapaz, tal qual alguém que faz uma longa viagem para nada, sacudiu sua saia vermelha e saiu xingando: “Xô cabra! Xô cabra! Xô cabra!”. Mal havia amanhecido o dia, o outro amigo voltou para desamarrar o companheiro, que certamente esbravejou aos montes devido à tamanha covardia de seu suposto amigo. Baixados os ânimos, eles conversaram sobre o ocorrido e o amigo disse que desistiu do pacto, não fez nenhum acordo, e que a mulher saiu xingando ele, e só! Pois e não é que deu cabra, na cabeça, por três dias consecutivos! Como os amigos não entenderam o recado, eles perderam a chance de ganhar no bicho. Mas minha mãe diz que foi melhor assim, afinal, se eles tivessem ganhado seria por intermédio do próprio capiroto, e suas almas seriam aprisionadas em troca do pagamento pela fortuna adquirida.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O arruaceiro que ficava invisível

Costumava contar tia Ana que, durante sua infância por volta dos anos 40, no Alto da Foice do bairro Casa Amarela em Recife, um rapaz apelidado de Tutu era conhecido por suas brigas e confusões. O antigo Alto da Foice, hoje em dia chamado de Alto Nossa Senhora de Fátima, era assim chamado por causa das constantes brigas de foice entre os moradores. Era costume comum, naquela época, que alguns moradores fizessem grandes festas em seus quintais, onde havia muita dança, comida e bebida à vontade. Tutu, por já ser conhecido por suas intromissões nas festas alheias, criando desavenças e, por muitas vezes, encerrando a comemoração, nunca era convidado. No entanto, Tutu  sempre aparecia de penetra nas festas, e já macaqueados com a situação, o pessoal já dizia amedrontado:  “Lá vem Tutu!”. O danado do Tutu entrava nas festas, fazia bagunça, brigava com todo mundo, e só saia da festa quando a polícia era chamada. O tal do Tutu, mesmo seguido pela polícia, se envultava na frente dos guardas, que ficavam perdidos sem saber onde o danado do rapaz havia se metido. O povo falava que Tutu se envultava porque, na verdade, havia feito um feitiço poderoso, capaz de deixá-lo invisível ou trasformar-se em um objeto ou um animal. O feitiço consistia em encontrar um gato preto sem sinal de cor alguma, colocá-lo vivo em um caldeirão no fogão e esperar pelo seu cozimento até sua completa diluição. Feito isso, o passo seguinte consistia em separar todos os ossos do gato e, na frente de um espelho virgem, levar à boca ossinho por ossinho, fazendo uma determinada oração. Quando, o ossinho certo fosse posto na boca, o indivíduo não mais veria sua imagem no espelho. Assim, Tutu continuava a fazer suas peripécias pelo Alto da Foice, ora fazendo prezepadas com os vizinhos, ora se envultando e fugindo da polícia.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Prefácio da obra

Essa coletânea surgiu de uma necessidade grandiosa e intrínseca de registrar um passado mágico e rico de histórias fantásticas, as quais, por muito tempo (e talvez ainda), permearam meu cotidiano infantil na região metropolitana do Recife entre as décadas de 80 e 90. Essas histórias são, em sua grande maioria, advindas de contos da minha própria família. Mas também contribuíram muito para essa humilde coletânea as ouvidas dos vizinhos e de conhecidos que, periodicamente, visitávamos em localidades mais longínquas.  
Muitos dos causos relatados aqui são advindos de histórias ocorridas em municípios da atual grande Recife, sendo em sua grande maioria provenientes de localidades mais afastadas e ainda chamadas de engenhos. Dentre essas localidades, algumas ainda possuem grandes canaviais e usinas de beneficiamento de açúcar e derivados, enquanto outras viraram bairros afastados ou pequenos povoados, praticamente perdidos da civilização. Para fins de compreensão sobre a distribuição espacial das histórias, o leitor poderá acompanhar o mapa detalhado de muitas das localidades retratadas aqui nesta obra.
Visto que passei toda minha infância e juventude em Ponte dos Carvalhos, atual distrito do município do Cabo de Santo Agostinho, que abarca trechos do litoral sul e da Zona da Mata pernambucana, muitas histórias se passam neste município, e já outras representam causos ouvidos ou presenciados por familiares e conhecidos em municípios próximos, ao exemplo de Escada e São Lourenço da Mata. Ora haverá algum relato ocorrido em Caruaru, no Agreste pernambucano e, para não dizer que não falei de Recife, haverá histórias provenientes da própria capital.

Finalmente, gostaria de agradecer imensamente a todos que contribuíram com suas histórias fantásticas, contadas com tanto entusiasmo e verdade, que me fizeram uma eterna apaixonada pelos causos e contos que o povo conta. Esclareço que há uma pitada de interpretação pessoal nas crônicas e, por isso mesmo, fiz questão de relatá-las como me lembrava delas, resgatando um “quê” de perplexidade e encanto infantil, de quando eu ouvia essas histórias, muitas vezes sentada à mesa da nossa cozinha, nos dias em que faltava energia elétrica e a família se reunia ali por horas. E eu, incoerentemente medrosa e corajosa, ouvia atentamente, e logo pedia por mais causos, especialmente os de mal assombro e outras visagens desse e do outro mundo.

Periodicamente, novas histórias serão postadas aqui. Veja a seguir, uma lista delas:

Sumário