Minha
mãe conta que há inúmeras formas de se ganhar no jogo do bicho, algumas mais
bobas como refletir sobre seu sonho da noite anterior, outras envolvendo rezas
antes de dormir, pedindo para que o bicho se mostrasse em sonho, ou mesmo a
famosa simpatia do cuscuz. Mas algumas formas eram realmente sinistras e ainda
mais certeiras no alcance do objetivo. E como tudo nessa vida é feito de
escolhas, fazer um pacto para ganhar no jogo do bicho significaria vender sua
alma a você sabe quem, não é mesmo? Pois ela contava que dois moços, cansados
da pobreza, em um belo dia resolveram fazer um pacto para ganhar no jogo do
bicho e resolver para sempre essa vida de pindaíba e de cuscuz puro ou com ovo.
Eles se organizaram por dias antes da noite prevista para a realização da
grandiosa cerimônia. Quando se aproximava da meia-noite, os dois se dirigiram
para uma encruzilhada bem afastada do centro da cidade, procuraram um poste, e
um dos rapazes foi amarrado a esse poste pelo seu outro colega. Talvez, caro
leitor, você esteja se perguntando por que amarrar um dos moços, como eu perguntei
à minha mãe na época em que ela me contou esse causo: fazia parte da cerimônia,
e eles simplesmente estavam seguindo todos os passos minuciosamente descritos
naquele livrinho de rituais. Parece que na ocasião não houve um consenso para
saber quem seria amarrado ao poste, mas depois de muita discussão, eles tiraram
no par ou ímpar e resolveram quem seria o sortudo a ficar preso à encruzilhada.
Então os rapazes esperaram até que batesse a meia noite e o moço que não estava
amarrado começou a ler alguma espécie de oração para invocar você sabe quem. Após
a terceira leitura da oração, uma ventania surgiu repentinamente, balançando
com avidez as folhas das árvores e até o poste onde um dos rapazes estava
amarrado. O outro rapaz, morto de medo, não pensou duas vezes e saiu em
disparada, deixando o amigo para trás. O moço amarrado, também se borrava de
medo, mas não podia fazer nada naquela situação, senão esperar para ver o que
aconteceria. Foi então, que do meio da ventania surgiu uma mulher, isso mesmo,
uma entidade chamada de Maria Padilha, esposa de você sabe quem. Essa mulher se
aproximou do rapaz amarrado e lhe perguntou, meio que aborrecida, o que você
quer? O rapaz, já cagado de medo, literalmente, desconversou e disse que não
queria nada não; que ele havia se arrependido e que ela poderia ir embora. A
mulher, ainda mais aborrecida, lançou um longo olhar de raiva para o rapaz, tal
qual alguém que faz uma longa viagem para nada, sacudiu sua saia vermelha e
saiu xingando: “Xô cabra! Xô cabra! Xô cabra!”.
Mal havia amanhecido o dia, o outro amigo voltou para desamarrar o companheiro,
que certamente esbravejou aos montes devido à tamanha covardia de seu suposto
amigo. Baixados os ânimos, eles conversaram sobre o ocorrido e o amigo disse
que desistiu do pacto, não fez nenhum acordo, e que a mulher saiu xingando ele,
e só! Pois e não é que deu cabra, na cabeça, por três dias consecutivos! Como
os amigos não entenderam o recado, eles perderam a chance de ganhar no bicho. Mas
minha mãe diz que foi melhor assim, afinal, se eles tivessem ganhado seria por
intermédio do próprio capiroto, e suas almas seriam aprisionadas em troca do
pagamento pela fortuna adquirida.
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sexta-feira, 8 de julho de 2016
O pacto para ganhar no bicho
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sexta-feira, 1 de abril de 2016
O arruaceiro que ficava invisível
Costumava contar tia Ana que, durante sua infância por volta dos anos 40, no Alto da Foice do bairro Casa
Amarela em Recife, um rapaz apelidado de Tutu era conhecido por suas brigas e
confusões. O antigo Alto da Foice, hoje em dia chamado de Alto Nossa Senhora de
Fátima, era assim chamado por causa das constantes brigas de foice entre os
moradores. Era costume comum, naquela época, que alguns moradores fizessem
grandes festas em seus quintais, onde havia muita dança, comida e bebida à
vontade. Tutu, por já ser conhecido por suas intromissões nas festas alheias, criando
desavenças e, por muitas vezes, encerrando a comemoração, nunca era convidado.
No entanto, Tutu sempre aparecia de
penetra nas festas, e já macaqueados com a situação, o pessoal já dizia
amedrontado: “Lá vem Tutu!”. O danado do
Tutu entrava nas festas, fazia bagunça, brigava com todo mundo, e só saia da
festa quando a polícia era chamada. O tal do Tutu, mesmo seguido pela polícia,
se envultava na frente dos guardas, que ficavam perdidos sem saber onde o
danado do rapaz havia se metido. O povo falava que Tutu se envultava porque, na
verdade, havia feito um feitiço poderoso, capaz de deixá-lo invisível ou
trasformar-se em um objeto ou um animal. O feitiço consistia em encontrar um
gato preto sem sinal de cor alguma, colocá-lo vivo em um caldeirão no fogão e
esperar pelo seu cozimento até sua completa diluição. Feito isso, o passo
seguinte consistia em separar todos os ossos do gato e, na frente de um espelho
virgem, levar à boca ossinho por ossinho, fazendo uma determinada oração.
Quando, o ossinho certo fosse posto na boca, o indivíduo não mais veria sua
imagem no espelho. Assim, Tutu continuava a fazer suas peripécias pelo Alto da
Foice, ora fazendo prezepadas com os vizinhos, ora se envultando e fugindo da
polícia.
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Casa Amarela, Recife - PE, Brasil
sexta-feira, 18 de março de 2016
Prefácio da obra
Essa coletânea surgiu de uma necessidade grandiosa e intrínseca de registrar um passado
mágico e rico de histórias fantásticas, as quais, por muito tempo (e talvez
ainda), permearam meu cotidiano infantil na região metropolitana do Recife entre
as décadas de 80 e 90. Essas histórias são, em sua grande maioria, advindas de
contos da minha própria família. Mas também contribuíram muito para essa humilde
coletânea as ouvidas dos vizinhos e de conhecidos que,
periodicamente, visitávamos em localidades mais longínquas.
Muitos dos causos relatados aqui são advindos de histórias ocorridas em municípios da atual grande
Recife, sendo em sua grande maioria provenientes de localidades mais afastadas
e ainda chamadas de engenhos. Dentre essas localidades, algumas ainda possuem
grandes canaviais e usinas de beneficiamento de açúcar e derivados, enquanto
outras viraram bairros afastados ou pequenos povoados, praticamente perdidos da
civilização. Para fins de compreensão sobre a distribuição espacial das
histórias, o leitor poderá acompanhar o mapa detalhado de muitas das
localidades retratadas aqui nesta obra.
Visto que passei toda
minha infância e juventude em Ponte dos Carvalhos, atual distrito do município
do Cabo de Santo Agostinho, que abarca trechos do litoral sul e da Zona da Mata
pernambucana, muitas histórias se passam neste município, e já outras representam
causos ouvidos ou presenciados por familiares e conhecidos em municípios
próximos, ao exemplo de Escada e São Lourenço da Mata. Ora haverá algum relato
ocorrido em Caruaru, no Agreste pernambucano e, para não dizer que não falei
de Recife, haverá histórias provenientes da própria capital.
Finalmente, gostaria
de agradecer imensamente a todos que contribuíram com suas histórias
fantásticas, contadas com tanto entusiasmo e verdade, que me fizeram uma eterna
apaixonada pelos causos e contos que o povo conta. Esclareço que há uma pitada
de interpretação pessoal nas crônicas e, por isso mesmo, fiz questão de
relatá-las como me lembrava delas, resgatando um “quê” de perplexidade e
encanto infantil, de quando eu ouvia essas histórias, muitas vezes sentada à mesa da nossa
cozinha, nos dias em que faltava energia elétrica e a família se reunia ali por
horas. E eu, incoerentemente medrosa e corajosa, ouvia atentamente, e logo
pedia por mais causos, especialmente os de mal assombro e outras visagens desse
e do outro mundo.
Periodicamente, novas histórias serão postadas aqui. Veja a seguir, uma lista delas:
Periodicamente, novas histórias serão postadas aqui. Veja a seguir, uma lista delas:
Sumário
A freira que vigiava.. 11
Visagem na madrugada.. 26
Comadre Florzinha.. 32
O homem de preto. 46
Papai Noel. 62
O lobisomem no jardim... 74
Epílogo. 81
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