No início da década de 80, o bairro
de Ponte dos Carvalhos, principalmente no trecho onde morávamos, era bastante ermo
e, ao sair tarde da noite, raramente se via uma viva alma nas ruas. Porém, em
uma certa noite, quando minha tia Ana voltava para casa após ter saído em busca
de um remédio para minha mãe, ela percebeu que não caminhava sozinha pelas ruas.
Ao virar a esquina da avenida principal com a rua da antiga “sinuca”, um bar
muito conhecido naquela região do velho Engelho Ilha, ela instintivamente olhou
para trás e percebeu que havia uma mulher com um longo e esvoaçante vestido vermelho
e que andava a passos largos em sua direção, praticamente cambaleaando ou
balançando no ar. Nesse instante, minha tia se arrepiou da cabeça aos pés e
percebeu que aquilo não se tratava de uma pessoa em carne e osso, mas sim de
uma assombração que, sabe-se lá o porquê, cismou de correr atrás dela,
justamente quando ela dobrava a esquina daquela encruzilhada. Sem raciocinar
muito para entender o que era aquela assombração, e por que estaria atrás dela,
tia Ana começou a fugir desesperada daquela mulher assombrada com um vestido
vermelho e cabelos esvoaçantes. Quanto mais ela corria, mais perto a mulher
chegava. Como naquela época todas as ruas do antigo Engenho Ilha eram de terra
batida, e para ser sincera, até pouco tempo ainda eram, tia Ana se danou a
pisar nas poças de lama e a perder os chinelos, chegando finalmente em casa
esbaforida e aterrorizada. A assombração sumiu quando finalmente ela dobrou a
esquina da rua onde morava. Ao chegar em casa, que ainda era iluminada por
lampião, ela contou o ocorrido a minha mãe, que sempre diz que nunca viu minha
tia tão descabelada e enlameada semelhante àquele dia. Parece mesmo que essa
assombração costumava habitar aquele trecho do bairro, pois alguns moradores
relatam que, até há alguns anos atrás, essa tal mulher de vermelho ainda
aparecia nas ruas, sempre depois da meia noite, correndo atrás de pobres almas
vivas desavisadas.
sábado, 9 de abril de 2016
Visagem na madrugada
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Pte. dos Carvalhos, Cabo de Santo Agostinho - PE, Brasil
O Papa Figo de Dois Irmãos
Tia Ana conta que seus vizinhos, no Alto da
Foice, relatavam um curioso caso sobre uma família abastada, que morava em um
casarão no bairro de Dois Irmãos em Recife. Segundo os relatos, os donos da
casa frequentemente contratavam uma ama de leite, cuja função seria amamentar
um suposto bebê da família. Porém, ao chegar a casa, logo a ama percebia que
sua tarefa se tratava de algo um tanto quanto mórbido, pois ela deveria
amamentar não uma criança, mas um adulto enfermo, cuja enfermidade supostamente
seria atenuada com uma dieta, digamos, bastante estranha. Uma das amas de leite
contratada para o serviço, terminou por concordar em amamentar o homem, visto
que seria muito bem remunerada. Mas, tamanha foi sua surpresa ao perceber que o
homem sugava tão fortemente seus seios, exaurindo todo seu leite e chegando até
mesmo a sugar seu próprio sangue. A mulher, apavorada, saiu correndo do
casarão, pulando o muro e sem receber nada em troca pelo serviço. Nesse ponto,
caro leitor, você deve estar se perguntando onde o Papa Figo entra nessa história
bizarra. A questão é que o homem enfermo era portador de lepra ou hanseníase, o
que naquela época levava a graves deformações por falta de tratamento,
incluindo as orelhas caídas e aparentemente crescidas, diagnóstico certeiro, para
a maioria das pessoas, de que o indivíduo tratava-se mesmo de um Papa Figo – um
comedor de fígado humano, especialmente de meninos, muito conhecido em Recife e
arredores. Unindo a aparência do moribundo ao hábito grotesco de alimentar-se
de leite materno, esse boato terminou correndo pelos bairros mais humildes,
onde provavelmente moravam outras possíveis amas de leite, que passaram pelo
mesmo sinistro pesadelo.
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sexta-feira, 1 de abril de 2016
O arruaceiro que ficava invisível
Costumava contar tia Ana que, durante sua infância por volta dos anos 40, no Alto da Foice do bairro Casa
Amarela em Recife, um rapaz apelidado de Tutu era conhecido por suas brigas e
confusões. O antigo Alto da Foice, hoje em dia chamado de Alto Nossa Senhora de
Fátima, era assim chamado por causa das constantes brigas de foice entre os
moradores. Era costume comum, naquela época, que alguns moradores fizessem
grandes festas em seus quintais, onde havia muita dança, comida e bebida à
vontade. Tutu, por já ser conhecido por suas intromissões nas festas alheias, criando
desavenças e, por muitas vezes, encerrando a comemoração, nunca era convidado.
No entanto, Tutu sempre aparecia de
penetra nas festas, e já macaqueados com a situação, o pessoal já dizia
amedrontado: “Lá vem Tutu!”. O danado do
Tutu entrava nas festas, fazia bagunça, brigava com todo mundo, e só saia da
festa quando a polícia era chamada. O tal do Tutu, mesmo seguido pela polícia,
se envultava na frente dos guardas, que ficavam perdidos sem saber onde o
danado do rapaz havia se metido. O povo falava que Tutu se envultava porque, na
verdade, havia feito um feitiço poderoso, capaz de deixá-lo invisível ou
trasformar-se em um objeto ou um animal. O feitiço consistia em encontrar um
gato preto sem sinal de cor alguma, colocá-lo vivo em um caldeirão no fogão e
esperar pelo seu cozimento até sua completa diluição. Feito isso, o passo
seguinte consistia em separar todos os ossos do gato e, na frente de um espelho
virgem, levar à boca ossinho por ossinho, fazendo uma determinada oração.
Quando, o ossinho certo fosse posto na boca, o indivíduo não mais veria sua
imagem no espelho. Assim, Tutu continuava a fazer suas peripécias pelo Alto da
Foice, ora fazendo prezepadas com os vizinhos, ora se envultando e fugindo da
polícia.
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quarta-feira, 23 de março de 2016
A família de almas penadas
Esse
causo ocorreu no Engenho Mupã, relativamente próximo à cidade de Escada onde
minha mãe morava nos anos 50. Ela conta que sua tia e prima vivenciaram esta história quando acompanharam o então padre da cidade até um sítio neste
engenho. Uma família de agricultores, que morava nesse sítio, costumava mandar
seus dois filhos, de cinco e seis anos, cortar capim em um terreno afastado de
sua casa, o que serviria para alimentar alguns animais do sítio. Naquela época,
trabalho infantil era coisa muito comum, e os mais ignorantes não raro
discursavam que criança devia mesmo trabalhar, pois brincadeira em casa de
gente necessitada era coisa de pessoa mole. Pois um belo dia, essas crianças
foram buscar capim e, sem mais nem menos, voltaram para casa desesperadas, deixando
ferramenta, capim e chinelos para trás. As crianças só diziam que não voltariam
novamente àquele local, e mais nenhuma explicação saia daquelas pobres bocas. Os
pais gritaram, bateram nas crianças, fizeram de tudo para entender o porquê
daquele comportamento, mas nada adiantou. Isso durou algumas horas, até que o
maiorzinho, já mais cansado da surra do que assustado com o que viu, finalmente
falou. Ele disse que no local onde eles comumente cortavam capim, viram três
pessoas, mulher, homem e criança, vestidos de preto e olhando fixamente para
eles, com olhos que não são desse mundo. O pai, em um primeiro instante não
acreditou, e disse que, no outro dia, eles iriam trazer capim nem que fosse a
base de cipoada nas canelas. A mãe, mais crente nas coisas do outro mundo, tentou
convencer o marido que, talvez, as crianças tivessem realmente avistado alguma
assombração. O marido, meio a contra gosto, mas para não contrariar a mulher,
que quando emburrada mais parecia uma gato do mato arisco, resolveu ir à Escada,
onde logo procurou pelo pároco local, o então padre João. Tocado pela situação,
muito mais pelas crianças do que pelos pais, o padre se dispôs a fazer uma
visita àquela família quão logo fosse possível. Quando finalmente o padre foi
visitá-los, conversou com as crianças e pediu que eles o levassem até o local
da aparição. Chegando lá, as crianças não tardaram a ver novamente as três
almas penadas, bem junto a um barranco onde a prima de minha mãe, que acompanhou
o padre em sua investigação, estava encostada. Essa prima saltou de susto, ao
perceber que as crianças olhavam assombradas em sua direção. Já o padre, macaco
velho com essas situações de visagem, pediu que os meninos perguntassem o que aquelas
três pobres almas desejavam. Os meninos perguntaram e finalmente disseram que
eles somente pediam uma missa. Pois bem, o padre disse que se era uma missa que
eles queriam, uma missa seria celebrada para aquelas pobres almas no próximo
domingo de manhã, e que a família das crianças deveria comparecer na ocasião. O
problema todo começou quando, no dia da fatídica cerimônia, a família das
crianças arrumou uma bela de uma romaria, com gente de vários sítios do
engenho, toda aquela gente amontoada em cima de um caminhão, parando de légua
em légua até finalmente chegar à igreja em Escada. Foi tanta gente a subir no
caminhão, e eles atrasaram tanto que chegaram à igreja somente após a leitura
do Evangelho. Foi aquele reboliço de gente entrando na igreja e tentando se
acomodar. Finalmente, quando a família conseguiu prestar atenção à missa, mal
puderam assistir somente ao final da cerimônia. Os pais das crianças
agradeceram ao padre, e voltaram novamente em tamanha romaria para seus
respectivos sítios. Porém, não se passaram três dias de tranquilidade, e o aflito
pai das crianças retornou à igreja para dizer que, agora estava muito pior,
pois aparentemente as almas penadas estavam aparecendo na porta de sua cozinha,
e que as crianças nem saiam mais de casa com tanto medo. O padre disse que já
havia celebrado a missa e que não retornaria ao sítio da família, mas que
buscasse saber com seus filhos o que ocorreu de errado. O pai, chegando em
casa, foi logo puxando o cipós de goiabeira e tratando de mandar os filhos
resolverem essa safpadeza. Ou perguntassem o que aquelas almas dos infernos
queriam ou iriam buscar capim com cipoada no lombo. O menino maiorzinho, muito
aterrorizado e depois de alguns sopapos, olhou para aquelas três almas pálidas
e vestidas de negro, bem ali na porta da cozinha, e perguntou o que eles ainda
queriam deles. As almas somente responderam que queriam uma missa, mas que
dessa vez as crianças deveriam assisti-la do começo até o fim. Pois bem, dessa
vez a família saiu do Engenho Mupã até Escada sem falar nada para vizinho
algum, evitando o olhar dos curiosos e todo atraso que isso poderia causar. Eles
assistiram à missa desde o começo, e quando ela finalmente terminou, o padre
perguntou às crianças sobre as almas penadas. Então as crianças disseram que os
três estavam, agora, vestidos de branco, sorriam e acenavam com um gesto de
adeus. Aquelas pobres almas nunca mais retornaram para assombrar as crianças, nem
tampouco interromper seus afazeres domésticos no sítio.
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domingo, 20 de março de 2016
Não brinque com a réstia
Minha mãe foi criada por sua tia
madrinha e pela avó paterna na cidade de Escada, mas durante algumas férias,
quando ainda tinha por volta de quatro a cinco anos, costumava visitar seus
pais em um sítio no Engenho Massauassu. A água era de poço, a iluminação de
candeeiro, e a casa dos meus avós era bastante afastada de outras casas, em
meio à cana de açúcar e algumas matinhas que existiam na região. Meu avô
costumava usar a desculpa de que precisava comprar querosene em um barracão da
usina, léguas longe dali, e todo santo dia ele saia cedo e voltava já tarde,
com aqueles dois dedinhos de querosene para acender o candeeiro. Mas na
verdade, ele voltava mesmo era bastante cheio de pinga. Enquanto isso, minha
mãe costumava ficar com minha avó durante todo o dia, a ajudá-la com os
afazeres domésticos, como ir buscar água no poço, procurar por lenha perto do
aceiro da mata, cuidar do jardim repleto de cravos e, às vezes, brincar com
bichinhos feitos de batata e palito. À tardinha, minha avó costumava dar banho
em minha mãe usando uma bacia e um canequinho, sempre à luz do candeeiro ou mesmo
de uma vela. Minha mãe conta que durante esses banhos ela achava extremamente
divertido observar sua réstia na parede da casa, e que corria de um lado para
outro em uma banqueta de madeira só para ver sua sombra enorme projetada na
parede. Minha avó, sempre advertia: “Não brinque com a réstia, menina! Você vai
se assombrar à noite”. Minha mãe não dava à mínima, e continuava brincando, por
várias ocasiões em que tinha oportunidade. Até que uma noite, sem nem mais lembrar
do que sua mãe costumava lhe dizer sobre essa possível assombração, minha mãe já
estava deitada em sua rede, no quarto onde dormia, quando percebeu que na
parede do quarto, bem a sua frente, havia uma velha. Isso mesmo, uma velha, que
parecia de carne e osso, mas que ela não a conhecia. Aquela velha era muito magra,
corcunda, de nariz muito pontudo e encurvado, vestida de preto, e a observava
atentamente. Minha mãe jura que não era réstia de alguma planta na janela, nem mesmo
que ela estava dormindo. Ela fechava os olhos e ao abrir, a velha continuava
lá, materializada, olhando-a fixamente. Minha mãe começou a chorar desesperada,
chamando por sua mãe, enquanto aquela velha, que mais aparentava ser uma bruxa
comedora de criancinhas, sumiu tal qual fumaça no ar. Naquela noite, minha avó correu
ao quarto e ficou com minha mãe até ela adormecer. Depois disso, a velha
tenebrosa não voltou a aparecer, e minha mãe parou com suas peraltices,
deixando sua própria réstia em paz.
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